Ferrogrão: Concessão é contestada por falta de consulta a indígenas

Ferrogrão: Concessão é contestada por falta de consulta a indígenas

O Instituto Kabu, o Centro Santo Dias de Direitos Humanos ajuizaram ação civil pública contra a ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres, acusando a autarquia de atropelar o direito à consulta prévia, livre e informada no processo de concessão da ferrovia EF-170, a Ferrogrão.

A ação foi protocolada na vara Federal de Itaituba/PA e busca suspender o trâmite do projeto no TCU – Tribunal de Contas da União até que o direito dos povos indígenas seja respeitado.

Em 2020, indígenas da caiapó bloqueiam a rodovia BR-163, em protesto contra a construção da ferrovia Ferrogrão, em Novo Progresso/PA.(Imagem: Fernando Souza/Fotoarena/Folhapress)

Segundo a petição inicial, a ANTT avançou com a desestatização da Ferrogrão – que prevê quase mil quilômetros de trilhos entre Sinop/MT e o distrito de Miritituba, em Itaituba/PA – sem garantir o consentimento das comunidades afetadas, descumprindo frontalmente a convenção 169 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro.

A ferrovia corta ou passa nas imediações de áreas como as Terras Indígenas Baú, Menkragnoti e Panará, regiões marcadas por histórico de conflitos e elevado risco de desmatamento.

Segundo a inicial, em fevereiro de 2024, a própria ANTT reconheceu em ofício que não realizou corretamente a consulta aos indígenas, e se comprometeu a cooperar com o Instituto Kabu para assegurar a observância do direito.

No entanto, conforme narram os autores, logo em seguida a agência incluiu o projeto entre os que seriam levados a leilão ainda em 2025, sem qualquer novo diálogo com as comunidades ou observância dos protocolos indígenas. A prática foi classificada pelos advogados como confissão de culpa seguida de reincidência institucional.

O traçado da Ferrogrão, que intercepta vasta área na Amazônia Legal, afeta áreas (bio)socioambientalmente protegidas, incluindo várias terras indígenas. Desse modo, a ANTT, ao não cumprir sua obrigação de realizar as consultas exigidas por lei, violou tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, ou seja, numa falha sistêmica na salvaguarda desses direitos. Adicionalmente, a decisão de avançar com o projeto apesar das irregularidades apontadas, reflete postura de arbitrariedade, desrespeito e omissão por parte da ANTT“, diz a peça inicial

A ação também aponta fragilidades nos estudos de viabilidade técnica, ambiental e econômica do empreendimento, elaborados sob responsabilidade da concessionária EDPL – Estação da Luz Participações e do ministério dos Transportes.

Documentos técnicos juntados aos autos indicam falhas metodológicas, omissão de impactos sobre comunidades isoladas e negligência com o patrimônio histórico e arqueológico da região do Tapajós. O risco estimado de desmatamento com a implantação da ferrovia chega a 500 mil hectares.

Além da paralisação do processo de concessão, os autores pedem que a ANTT seja condenada a pagar R$ 1,7 bilhão por dano moral coletivo às comunidades indígenas representadas pelo Instituto Kabu.

Veja a inicial.

MPF

Na última segunda-feira, 1º, o MPF ingressou no processo como parte autora, ratificando integralmente os pedidos da petição inicial.

O MPF ratificou integralmente os pedidos formulados e apontou que a matéria já é objeto de acompanhamento no processo administrativo 1.23.000.000523/2023-09, instaurado especificamente para fiscalizar a observância da convenção 169 no contexto da Ferrogrão.

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